Maior preocupação com a saúde, busca pelo bem-estar e novos hábitos de higiene estão mudando como as pessoas enxergam e querem os espaços

Após quase dois anos de convivência com uma pandemia, é inevitável que hábitos e rotinas mudem definitivamente. Mais tempo em casa, mais preocupação com a saúde e o bem-estar, novas práticas de higiene, tudo isso muda não só nosso comportamento, mas também os ambientes que usamos. Por isso, dentro das tendências de decoração para 2022, ainda teremos um forte impacto do atual cenário pandêmico. 

Para Karla Patrícia, sócia do escritório Norden Arquitetura, o enclausuramento imposto pela Covid-19 e a priorização da saúde fizeram com que muita gente repensasse a divisão espacial do seu lar, o que está influenciando nos novos projetos de interiores. “Tivemos muitas pessoas que passaram a trabalhar de casa e isso, num primeiro momento, gerou em muita gente a sensação de isolamento e até depressão. Então, as pessoas perceberam que mesmo ficando mais tempo em casa, precisavam de ambientes mais arejados até para se ter o contato com a luz do sol, o que é muito saudável e recomendado pelos médicos, e para reduzir também a sensação de enclausuramento”, explica a arquiteta.

Diante dessa mudança de paradigma, ambientes e itens que estavam esquecidos no passado voltam com força total em muitos projetos. Exemplos disso, segundo Karla, são a varanda, um meio esquecido nos apartamentos e nas casas, e o uso de plantas naturais. “Essa volta do uso da varanda reforça uma outra tendência, a presença de plantas, independentemente do tamanho do ambiente, na decoração. As pessoas passaram a optar mais pelas plantas naturais, em detrimento das artificiais que são mais fáceis de cuidar. Com mais tempo em casa, consequentemente, passou-se a ter mais tempo para cultivar e cuidar das plantas e isso também virou uma válvula de escape psicológico para muita gente”, esclarece a arquiteta.

Para a arquiteta Júlia Gama, que também integra o time de arquitetos da Norden, a Covid-19 transformou fortemente a relação das pessoas com os espaços. Segundo ela, os projetos de interiores e a arquitetura de modo geral voltam ainda mais ao conceito biofilia (conexão com a natureza). “As pessoas estão dando preferência aos ambientes mais arejados e integrados à natureza, com iluminação natural e valorização da sustentabilidade. Assim, a aposta é de ambientes mais clean e, ao mesmo tempo, aconchegantes e funcionais”, detalha.

Antessala
Júlia destaca, por exemplo, uma maior preocupação com a higiene, o que fez surgir a projeção de espaços, que até então, não eram muito comuns na grande maioria dos projetos de interiores no Brasil. “Temos hoje como uma tendência forte, áreas para higienização nas entradas das residências, como uma antessala para você tirar os sapatos, podendo conter também cabideiros para colocar as roupas que usamos na rua e não entrar com elas em casa. Esse hábito de separar a área externa da área interna, parece ter vindo para ficar, já voltamos ao velho hábito de tirar os sapatos antes de entrar em casa”, explica Júlia, da Norden.

“As pessoas passaram a ter mais esse cuidado de não entrar com os sapatos sujos em casa. Em alguns países, por exemplo, como Estados Unidos e Japão, você já tem o costume do closet perto da porta de entrada e, portanto, não tem essa coisa de entrar em casa com a roupa da rua”, reforça a arquiteta Karla Patrícia.

Outra tendência forte identificada por Karla para os projetos de decoração em 2022 é a valorização dos materiais naturais como palhas, vasos em barro, couro, tecidos, tapetes de sisal e o uso forte dos tons de terracota. “Todos esses elementos refletem num ambiente mais aconchegante. Já os materiais mais duros e frios, como espelhos, granitos e vidros, perdem um pouco de espaço, embora ainda estejam presentes. Esse movimento valoriza mais o que temos mais próximo de nós, como uso de peças de artesanato indígena ou do nordeste brasileiro. Aliás, os artesanatos estão muito em alta na decoração. Peças em macramê e crochê estão sendo muito usadas, porque com a pandemia, essas técnicas de artesanato viraram hobby de muita gente que precisou ficar mais tempo em casa”, avalia.

As duas arquitetas também comentaram sobre a cor para 2022 recentemente anunciada pela Pantone, a Very Peri.  “Gostei muito da cor, que é um tipo de azul.  Ela tem um fundo vermelho que lembra bastante o roxo, embora não seja tão forte. É um tom que costuma ser fácil de trabalhar, mas apesar disso, é melhor avaliar bem, pois ele tem o fundo quente do vermelho e isso pode fazer com que a pessoa enjoe rápido”, avalia Karla. 

Para evitar esse risco de se usar uma cor que pode “cansar” mais rapidamente o ambiente, Júlia vê algumas boas possibilidades para o uso desse novo teom. “A cor Very Peri é versátil e pode transformar a decoração. Dentro do leque de possibilidades, acho que pode ser usada em estofados, acabamento de mobiliário ou preenchendo uma parede de um cômodo. Porém, por ser uma cor forte, é preciso saber usá-la de maneira harmônica e equilibrada”, sugere a decoradora.

Veio pra ficar
Se tem um ambiente que passou a ganhar uma grande visibilidade nas casas, com a pandemia, este espaço é o escritório, ou home office. “Mesmo com muita gente retomando o trabalho presencial, o home-office vai ter muita utilidade em casa. É um ambiente, para quem tem filho, por exemplo, pode usar como sala de estudo ou então uma sala de games, algo que já vimos em muitos projetos”, sugere Karla Patrícia.

Júlia também avalia que o home office é um ambiente que veio para ficar nos novos projetos e que continuará sendo adotado numa escala muito maior do que era antes da Covid-19. “Acredito que, daqui para frente, a infraestrutura adequada para o ambiente do home office é essencial para aqueles que pretendem seguir com este modo de trabalho. O ideal é que se tenha um espaço reservado, com privacidade, buscando separar a vida profissional da pessoal. Uma alternativa é aproveitar um cômodo subutilizado ou algum que dê para adotar dupla funcionalidade , como uma varanda fechada ou um quarto de hóspedes”, sugere.