George Love, Ilha do Marajó, 1971. Fotografia publicada no  livro Amazônia e Alma e Luz

George Leary Love (1937-1995), fotógrafo afro-americano que desenvolveu uma trajetória extremamente prolífica no Brasil entre as décadas de 1960 e 1980, terá uma retrospectiva de sua obra exibida no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em cartaz de 29 de fevereiro a 12 de maio, a exposição George Love: além do tempo tem curadoria do pesquisador e fotógrafo Zé De Boni, a quem Love confiou parte de seu arquivo e documentos relevantes de sua história, e será a primeira grande mostra póstuma do artista.

Reunindo um conjunto de mais de 500 fotografias, em novas impressões e originais de época, a exposição traça uma linha do tempo que remonta a um período desde antes do artista vir para o Brasil, até sua morte em 1995. O curador explica que optou por dividir a mostra em 20 núcleos, como se o espaço expositivo sediasse 20 individuais de Love, cada uma se debruçando sobre uma temática ou uma época. Os setores consideram também os lugares onde George Love viveu no decorrer de sua carreira: primeiro em Nova York, depois São Paulo, onde (se instalou) chegou em 1966, uma escapada ao Rio de Janeiro, o retiro em Nova York depois de 20 anos no Brasil, e a volta São Paulo nos seus últimos anos de vida.

Nascido em 1937 na cidade de Charlotte, na Carolina do Norte (EUA), George Leary Love veio de uma família simples e culta. A fotografia apareceu em sua vida de maneira inesperada e ele desenvolveu o ofício de maneira autodidata. Formado em Matemática e Filosofia da arte, só foi descobrir-se fotógrafo no período em que viveu na Indonésia, onde o pai trabalhava no serviço diplomático. Na volta ao seu país, morou em Nova York, onde iniciou uma carreira bem-sucedida na fotografia.

Participou de um grupo de vanguarda chamado Association of Heliographers, do qual chegou a ser vice-presidente. O grupo nova-iorquino tinha como membros nomes importantes da fotografia estadunidense e, no início da década de 1960, atuava com pioneirismo ao dispor de um espaço para exposição dos trabalhos de seus integrantes, observado com atenção pelos críticos da época. Além disso, foram precursores na comercialização de fotografias coloridas, o que era visto como tabu na época.

Também durante os anos 1960, Love envolveu-se com o grupo Student Nonviolent Coordinating Committee, conhecido pela sigla SNCC, formado em grande parte por estudantes negros, que promoviam protestos e ações diretas contra a segregação etnico-racial nos Estados Unidos. Essa questão, porém, quase não aparece na obra do fotógrafo. Ele realiza alguns registros que se aproximam de um resgate da ancestralidade, incluindo fotografias de sua famíla, e também alguns breves registros do bairro do Harlem em Nova York, conhecido por ser reduto da cultura afro-americana.

George Love deixou grande parte de seu acervo e seu arquivo com Zé De Boni, outra parte ficou nos Estados Unidos com sua ex-companheira, Barbara Livesey, que doou esse material à Universidade da Carolina do Norte em Charlotte (University of North Carolina in Charlotte), na cidade natal do fotógrafo, no início dos anos 2000. O curador levou anos trabalhando no material, diante da necessidade de identificar e interpretar documentos e fotografias que recebeu precariamente agrupados, para oferecer ao público uma visão mais clara e organizada. Durante a pandemia o trabalho foi intensificado, resultando nessa exposição.

De Boni baseou sua pesquisa no seu íntimo conhecimento da atuação de George Love, tendo sido um raro curador de uma exposição dele nos tempos áureos. Ele também fez entrevistas com pessoas que conviveram com o fotógrafo. Os documentos e cartas trazem detalhes marcantes desconhecidos até para os mais íntimos e as revelações dão um colorido especial à interpretação do trabalho do autor e de sua personalidade.

Pioneiro e inovador, esteve sempre na vanguarda e é considerado como alguém que estava à frente de seu tempo, por seus pares. A partir daí, surgiu o nome da exposição. Além disso, o fotógrafo tinha um certo mistério em torno de si, pois pouco se sabia de onde veio o destino que tinha levado.

“Desde que eu estou com esse acervo, tenho essa preocupação com o destino de tornar isso acessível a pesquisadores, estudiosos, estudantes e público. Principalmente porque era essa a vontade do George e foi isso o que ele me confiou”, comenta Zé De Boni. Para o curador, a realização da exposição no MAM representa um passo significativo para a preservação da obra e da memória de George, ao mesmo tempo em que celebra a relevância do fotógrafo.

Segundo Cauê Alves, curador-chefe do MAM: “Em uma época em que a crise climática está cada vez mais evidente, a mostra George Love: além do tempo chama atenção para o olhar visionário e atual do artista, assim como para questões ambientais urgentes. O MAM possui um dos acervos de fotografia mais relevantes do país, a mostra do George Love contribui não apenas para sua difusão, em especial de um recorte pouco estudado, como para construção de uma história da fotografia mais diversa.”

George no Brasil
George Love conheceu Claudia Andujar durante uma das viagens da fotógrafa para os Estados Unidos. Convidado por ela, veio ao Brasil em 1966 e viveram juntos por 8 anos. George contava de forma anedótica que não sabia o que vinha fazer no país, incerto em relação ao que o mercado brasileiro oferecia para o tipo de fotografia mais artística à qual se dedicava. Caiu nas graças de pessoas importantes, que o incentivaram bastante. Entre essas pessoas estavam Pietro Maria Bardi, fundador do MASP, e Roberto Civita, na época presidente do Grupo Abril.

A Abril procurava fotógrafos criativos para colaborar com suas publicações jornalísticas e o portfólio de George chamou a atenção dos publishers. Inclusive, o próprio Roberto viria a convidá-lo, de maneira um tanto inusitada, a fotografar esportes, categoria nunca antes explorada pelo fotógrafo, provocando-o a agir “fora da caixa” e impressionando a todos com o resultado. Neste âmbito, destacaram-se, em particular, as contribuições de George para a revista Realidade, veículo que deixou uma marca significativa na imprensa brasileira por suas reportagens aprofundadas.

Neste mesmo período, no início dos anos 1970, ele e Claudia Andujar são convidados por Pietro Maria Bardi a realizar diversas atividades sobre a fotografia no MASP. Ali realizam exposições pioneiras, desfrutando de uma liberdade de pensamento e execução de projetos que lhes foi conferida. Paralelamente, ele começa a atuar de maneira comercial, investindo na área de fotografia corporativa, tendo como um de seus principais clientes a Olivetti, a Eletrobrás e a Eletropaulo, sempre em trabalhos com exuberância criativa.

A Amazônia
Já na sua chegada ao Brasil, George Love empreendeu uma viagem à região do povo Xikrin, no Pará, com Claudia Andujar. Uma edição especial, a Realidade os levou de volta à Amazônia e o seu resultado marcante iniciou uma dedicação aprofundada dos dois à região. De Boni aponta uma “ética” acordada pelos dois fotógrafos, que estabelecia que o trabalho com as comunidades indígenas seria feito por Claudia, enquanto George se dedicaria mais à paisagem. Esses registros culminaram no fotolivro Amazônia, uma celebração visual e narrativa da diversidade cultural e da conexão íntima entre as comunidades indígenas e o meio ambiente.

Para George, a experiência de fotografar a região era marcada por uma dimensão onírica em imagens aéreas, dada a vastidão e a exuberância de sua biodiversidade. Em reminiscência ao seu trabalho, ele chegou a expressar que a infinitude da Amazônia era algo impossível de ser capturado por uma câmera, mas, contudo, era algo possível de ser sonhado.

Outro trabalho destacado do fotógrafo foi resultado de sua interação com a cidade que ele adotou, publicado no livro São Paulo: Anotações, também aclamado pelos críticos.

Porém, foi com a paisagem amazônica que ele celebrava sua identificação e é este o grande destaque da exposição. De Boni ainda aponta o livro Service Order 8696, o qual George considerava seu “autorretrato”, o que seria repetido em seu livro póstumo Alma e Luz. Esses e outros fotolivros estarão também em exibição na mostra do MAM São Paulo, bem como uma entrevista inédita, gravada em vídeo pelo próprio curador em 1993.

Sobre o MAM São Paulo
Fundado em 1948, o Museu de Arte Moderna de São Paulo é uma sociedade civil de interesse público, sem fins lucrativos. Sua coleção conta com mais de 5 mil obras produzidas pelos mais representativos nomes da arte moderna e contemporânea, principalmente brasileira. Tanto o acervo quanto as exposições privilegiam o experimentalismo, abrindo-se para a pluralidade da produção artística mundial e a diversidade de interesses das sociedades contemporâneas.

O Museu mantém uma ampla grade de atividades que inclui cursos, seminários, palestras, performances, espetáculos musicais, peças de teatro, sessões de filmes e práticas artísticas. O conteúdo das exposições e das atividades é acessível a todos os públicos por meio de visitas mediadas em libras, audiodescrição das obras e videoguias em Libras. O acervo de livros, periódicos, documentos e material audiovisual é formado por 65 mil títulos. O intercâmbio com bibliotecas de museus de vários países mantém o acervo vivo.

Localizado no Parque Ibirapuera, a mais importante área verde de São Paulo, o edifício do MAM foi adaptado por Lina Bo Bardi e conta, além das salas de exposição, com ateliê, biblioteca, auditório, restaurante e uma loja onde os visitantes encontram produtos de design, livros de arte e uma linha de objetos com a marca MAM. Os espaços do Museu se integram visualmente ao Jardim de Esculturas, projetado por Roberto Burle Marx para abrigar obras da coleção. Todas as dependências são acessíveis a visitantes com necessidades especiais.

Serviço:
George Love: além do tempo
Curadoria: Zé De Boni
Período expositivo: 29 de fevereiro a 12 de maio de 2024
Local: Sala Milú Villela, Museu de Arte Moderna de São Paulo
Museu de Arte Moderna de São Paulo
Endereço: Parque Ibirapuera
(Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – acesso pelos portões 1 e 3)
Horários: terça a domingo, das 10h às 18h (com a última entrada às 17h30)
Ingressos: R$30,00 inteira e R$15,00 meia-entrada. Aos domingos, a entrada é gratuita e o visitante pode contribuir com o valor que quiser. Para ingressos antecipados, acesse mam.org.br/visite

*Meia-entrada para estudantes, com identificação; jovens de baixa renda e idosos (+60). Gratuidade para crianças menores de 10 anos; pessoas com deficiência e acompanhante; professores e diretores da rede pública estadual e municipal de São Paulo, com identificação; amigos e alunos do MAM; funcionários das empresas parceiras e museus; membros do ICOM, AICA e ABCA, com identificação; funcionários da SPTuris e funcionários da Secretaria Municipal de Cultura.

Telefone: (11) 5085-1300
Acesso para pessoas com deficiência
Restaurante/café
Ar-condicionado
Mais informações:
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