Livro-reportagem sobre os abusos cometidos num manicômio em Minas Gerais, que vendeu mais de 300 mil exemplares, ganha nova edição

“Trem de doido” foi a expressão incluída por Guimarães Rosa no conto Sorôco, sua mãe, sua filha para descrever a situação dos vagões apinhados de gente que cruzavam as ferrovias do interior de Minas Gerais com destino ao Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena. Fundada em 1903, a instituição conhecida apenas por Colônia recebeu por décadas centenas de pessoas diariamente para uma viagem sem volta. Os pacientes, muitas vezes sem diagnóstico de doença mental, eram submetidos a condições desumanas com o consentimento do Estado, de médicos, funcionários e sociedade. Pelo menos sessenta mil pessoas morreram entre os muros do Colônia — a maior parte entre as décadas de 1960 e 1970. Eleito o melhor livro-reportagem do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (2013) e segundo melhor livro-reportagem no Prêmio Jabuti (2014), Holocausto brasileiro vendeu mais de 300 mil exemplares no Brasil e Portugal e agora ganha uma nova edição, pela Intrínseca, com posfácio escrito pela autora e novo projeto gráfico.

Ao longo de décadas, o manicômio se tornou um depósito de homens, mulheres — e até de crianças — que haviam se tornado indesejáveis para o convívio social: homossexuais, prostitutas, mães solteiras, meninas violentadas pelos patrões, mendigos, ou moças que tinham perdido a virgindade antes do casamento. Quando chegavam ao Colônia, a maioria à força, tinham as cabeças raspadas e as roupas arrancadas. E isso era apenas o começo: no dia a dia eram submetidos a toda ordem de maus-tratos. Mesmo nas madrugadas frias da serra da Mantiqueira, eram atirados ao relento e perambulavam nus pelos pátios. Comiam ratos, bebiam esgoto, urina, dormiam sobre o feno, além de serem submetidos a torturantes sessões de eletrochoque. Entre 1969 e 1985, quase dois mil cadáveres foram vendidos clandestinamente para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse.

Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro da luta pelo fim dos manicômios e defensor do tratamento humanizado, conheceu o Colônia e declarou nunca ter visto uma tragédia como aquela. Num árduo esforço de apuração, Daniela Arbex localizou sobreviventes e entrevistou ex-funcionários para resgatar de maneira detalhada e emocionante as histórias de quem viveu de perto o horror perpetrado por um instituição com o propósito de limpeza social comparável ao nazismo. Holocausto brasileiro é o relato essencial de um capítulo obscuro da história brasileira, o que fez dele um marco do jornalismo investigativo no país.

DANIELA ARBEX trabalha há mais de 20 anos como repórter especial do jornal Tribuna de Minas. Suas investigações resultaram em mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, entre eles três Esso, o IPYS de melhor investigação da América Latina, o Knight Internacional e o Lorenzo Natali (Bélgica). Estreou na literatura com Holocausto brasileiro e em seguida lançou Cova 312, com os quais ganhou, em 2014 e 2016, respectivamente, o segundo e o primeiro lugares do Prêmio Jabuti, na categoria livro-reportagem. Recentemente, Holocausto brasileiro foi adaptado como documentário e lançado pela HBO em 40 países. Pela Intrínseca, lançou também Todo dia a mesma noite, em 2018. Mãe de Diego, Daniela mora em Juiz de Fora.

“Embora o foco principal sejam as vítimas do horror de décadas de maus-tratos a quem dá voz, a obra faz um estudo completo do hospital, de seus funcionários, algozes, cúmplices e do modus operandi do genocídio, além de um rigoroso trabalho de investigação jornalística.”
Le Monde Diplomatique Brasil

HOLOCAUSTO BRASILEIRO

Foto: Intrínseca/Divulgação

Editora: Intrínseca
288 páginas
Impresso: R$ 49,90
E-book: R$ 34,90